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Artigo - O Impacto Emocional da COVID-19

09 de Setembro de 2020 às 16h50

Leia abaixo artigo do psiquiatra Octávio Saliba, integrante do Programa Amor à Vida

 

Em dezembro de 2019, casos de um novo tipo de pneumonia viral foram descritos em Wuhan, província de Hubei, na China. Acredita-se que tenha sido originada no mercado molhado do local. Um novo tipo de Coronavírus, o SARS-CoV-2, foi identificado como causador da COVID-19, doença com amplo espectro clínico, podendo causar desde infecções assintomáticas, quadros respiratórios graves e até mesmo o óbito.

O mundo está interconectado e o potencial para rápida disseminação de uma nova doença infecciosa é crescente ameaça. Diferentemente da epidemia, que está concentrada em determinada região, a pandemia acontece quando o aumento inesperado de determinada doença se espalha por diversos países ou continentes. Assim sendo, a COVID-19 rapidamente se disseminou pelo mundo. Em fevereiro de 2020 já haviam casos confirmados da doença em 23 países (Shigemura, 2020). No dia 11 de março de 2020, foi declarada Pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o registro mundial de casos de COVID-19 da John Hopkins University, no início do mês de setembro, haviam 27.235.839 casos confirmados e 890.687 óbitos pela doença em 188 países. No mesmo período, o Brasil registrou 4.147.794 de casos de COVID-19 e 126.960 óbitos pela doença.

A documentação que conecta a ocorrência de uma epidemia viral e angústia intensa data de mais de 100 anos. Diante do contexto da Gripe Espanhola, foi descrito que a resposta emocional durante uma pandemia de doença infecciosa inclui os sentimentos de extremo medo e incerteza que, junto da separação de entes queridos e limitações das liberdades, são um fardo dramático para a saúde mental (Menninger, 1919).

Uma pesquisa realizada com 1.210 chineses de 194 cidades em janeiro de 2020 mostrou que 16,5% apresentavam sintomas de depressão moderada a grave, e 29% ansiedade moderada a grave. Em março de 2020 a Associação Americana de Psiquiatria fez uma pesquisa e um terço dos entrevistados relatou que a pandemia pelo COVID-19 estava causando sério impacto na sua saúde mental. Quase a metade da população americana estava preocupada em contrair o vírus, ficar gravemente doente ou morrer. Estudo italiano evidenciou que 38% da população geral percebia o risco da COVID-19 como uma forma importante de angústia (Moccia, 2020).

Entre 24 e 30 de junho de 2020, 5.470 adultos americanos foram avaliados acerca do impacto na saúde mental da Pandemia COVID-19, com resultados alarmantes em adultos jovens. 40,9% dos entrevistados reportaram ao menos um dos sintomas de ansiedade ou depressão. Porém, na parcela de adultos jovens (18 a 24 anos), esse índice foi de 74,9%. 13,3% dos participantes iniciaram ou aumentaram o uso do álcool ou drogas para tentar lidar com o estresse diante da pandemia, sendo esse índice de 26,3% quando considerados apenas aqueles entre 18 e 24 anos. 10,7% dos entrevistados tiveram pensamentos suicidas no período de 30 dias anteriores à pesquisa. No grupo de adultos jovens, essa taxa foi de 25,5%. Esses dados mostram o brutal impacto da COVID-19 na saúde mental da população e a relevância em abordar essa situação.

Diante do aumento do número de óbitos e de casos confirmados com COVID-19, somado à ausência de tratamento seguro e eficaz, foram adotadas medidas governamentais de distanciamento social. Essa foi a forma de impedir a interação próxima e frequente das pessoas, visando reduzir a disseminação da doença. Foram fechadas as praças, o comércio não essencial, os restaurantes, igrejas, e a população estimulada a permanecer em seu domicílio. Para aqueles que tiveram contato com casos suspeitos ou confirmados da doença, a quarentena, ou seja, o isolamento social foi imposto. Nesse contexto, diversos efeitos psicológicos danosos apareceram.

O distanciamento social decretado dificultou a interação de maneira próxima e frequente com as outras pessoas. A frustração e o tédio pelo confinamento, pela interrupção da rotina, pela alteração das atividades habituais de trabalho, e da perda da liberdade de ir e vir são consequências imediatas e estressoras. A hiperexposição ao noticiário com seus dados chocantes exacerbam o medo e a angústia. As redes sociais e a divulgação de fake news alarmam ainda mais a população.

O medo de ter ou contrair doenças graves, conhecido como ansiedade de saúde, leva a tipos opostos de comportamento. Um deles é a esquiva dos serviços de saúde por considerar esses locais como fonte de contágio, muitas vezes interrompendo ou adiando tratamentos essenciais. O outro é a procura exagerada por atendimento médico. Sintomas respiratórios leves, que antes seriam atribuídos a um simples resfriado ou quadro alérgico, tais como espirros, coriza e tosse, passam a gerar sinais de alerta e medo da morte por COVID-19.

Sentimentos de frustração pela imprevisibilidade da duração da pandemia e a enorme incerteza sobre o futuro, e sofrimento intenso pela crise econômica, desemprego, perda de entes queridos e amigos pela doença. Nesse contexto, distúrbios emocionais tais como ansiedade, pânico, depressão, insônia, irritabilidade excessiva, surgiram ou foram exacerbados.

As medidas de isolamento social dificultaram a prática de atividade física, favorecendo os distúrbios alimentares. O ganho de peso é uma queixa frequente. Os distúrbios de sono aumentaram, destacando-se a insônia e a alteração do ritmo circadiano (irregularidade do ritmo de vigília e sono). A pandemia age como severo estressor e atua como gatilho para o uso ou o abuso do álcool, tabaco e drogas. Os circuitos cerebrais são induzidos a adaptações profundas envolvendo a motivação, recompensa, comportamento e controle cognitivo. Essas alterações podem levar à impulsividade, dificuldade para a tomada de decisão, mal estar, estados emocionais negativos, e à diminuição da habilidade para lidar com o estresse emocional. A prolongada exposição ao álcool e às drogas também causam disfunção nesses circuitos, dessa forma, o estresse e os agentes de adição interagem sinergicamente para estimular e manter a compulsão. Essas alterações cerebrais são duradouras, permanecendo mesmo com a finalização do estímulo estressor ou quando o indivíduo está abstinente.

A sensação de solidão e tristeza pelo afastamento dos parentes, amigos e colegas, fez aumentar a incidência de quadros de depressão e ansiedade. Por outro lado, a convivência familiar intensa e prolongada favorece discussões, agressões e até violência doméstica. As crianças e jovens tornaram-se mais irritáveis, houve piora do desempenho escolar, e sintomas de automutilação e depressão com ideação suicida são mais frequentes.

O estresse é uma resposta esperada para situações de mudanças em nossas vidas. O gênero é uma determinante biológica de vulnerabilidade ao estresse emocional, além de fatores genéticos, hormonais, socioculturais e de desenvolvimento. Os homens são em certo grau menos propensos a desenvolverem sintomas psicológicos em face de eventos estressantes. (Wang et al, 2007)

O temperamento se refere à reatividade emocional individual que aparece precocemente na vida. É estável e tem forte sustentação biológica. Certos traços do temperamento afetivo e da personalidade podem, até certo ponto, mediar funções adaptativas de enfrentamento aos estressores ambientais. (Akiskal e Akistal, 2015)

A teoria do apego postula que os laços íntimos construídos com os cuidadores durante a infância são cruciais para o desenvolvimento emocional e social, e fornece o modelo para padrões duradouros de estratégias emocionais, cognitivas, e comportamentais na idade adulta, além do estilo de apego do adulto (Bartholomew e  Horowitz, 1991). Situações estressantes ativam o sistema de apego e as evidências baseiam-se na existência de uma relação entre os padrões de apego e à responsividade ao estresse durante a vida adulta.

O temperamento e o apego podem afetar o grau de angústia durante a pandemia. Quando percebemos um grande risco de perda do controle do nosso destino ou de nossa integridade física reagimos com intenso estresse emocional, e o medo é a emoção preponderante.

Além de todas as medidas específicas de proteção para o COVID-19, é necessário atentar-se para os sintomas emocionais que são frequentes e podem aparecer em adultos, crianças e idosos (Tabela 1). O impacto emocional do COVID-19, na sua forma mais grave representado pelo comportamento suicida, permanecerá por longo período de tempo, superior à duração da pandemia, com pico de incidência posterior ao pico do número de casos da doença, e deve ser abordado adequadamente. Todas as medidas para redução do nível de estresse, ansiedade, medo e sensação de solidão se fazem necessárias.

Considera-se comportamento suicida todo ato iniciado deliberadamente por um indivíduo com a intenção de causar a morte de si mesmo (Tabela 2). Se associarmos o futuro às situações difíceis, negativas e à redução do otimismo, o suicídio passa a ser visto como um alívio. Nos jovens, a combinação da incerteza de seu futuro pessoal e as perspectivas a longo prazo, sem muita esperança ou promessa do futuro, os faz pensar que a vida como ela se apresenta não vale a pena. A desesperança é um dos grandes gatilhos para o suicídio (Tabela 3).

Além das pessoas que já estavam em acompanhamento e que tiveram seus sintomas piorados nos últimos meses, muitas outras desenvolveram transtornos emocionais. O Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção ao suicídio. Nesse mês devemos ainda mais nos atentar para os sintomas emocionais, agravados com a pandemia.

 

Referências:

Shigemura, J. , Ursano, R. J. , Morganstein, J. C. , Kurosawa, M. , &Benedek, D. M. (2020). Public responses to the novel 2019 coronavirus (2019‐nCoV) in Japan: Mental health consequences and target populations. Psychiatry and Clinical Neurosciences, 74(4), 281–282. 10.1111/pcn.12988

 

Coronavirus resource center. Johns Hopkins University 

Disponível em: <https://coronavirus.jhu.edu/map.html>. Acesso em 05/09/2020.

 

Menninger, K.A., 1919. Psychoses associated with influenza, I: general data: statisticalanalysis. JAMA 72 (4), 235–241.

 

Moccia L, Janiri D, Pepe M, et al. Affective temperament, attachment style, and the psychological impact of the COVID-19 outbreak: an early report on the Italian general population. Brain Behav Immun. 2020;87:75-79. doi:10.1016/j.bbi.2020.04.048.

 

Czeisler MÉ, Lane RI, Petrosky E, et al. Mental Health, Substance Use, and Suicidal Ideation During the COVID-19 Pandemic - United States, June 24-30, 2020. MMWR Morb MortalWkly Rep. 2020;69(32):1049-1057. Published 2020 Aug 14.doi:10.15585/mmwr.mm6932a1

 

Wang, J., Korczykowski, M., Rao, H., et al., 2007. Gender difference in neural response topsychological stress. Soc. Cogn. Affect. Neurosci. 2 (3), 227–239.

 

Akiskal, K.K., Akiskal, H.S., 2005. The theoretical underpinnings of affective temperaments:implications for evolutionary foundations of bipolar disorder and humannature. J. Affect. Disord. 85 (1–2), 231–239.

 

Bartholomew, K., Horowitz, L.M., 1991. Attachment styles among young adults. A test ofa four-category model. J. Pers. Soc. Psychol. 61, 226–244.

 

Brooks, S.K. et al.. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet v. 395, p. 912–920. 2020.

 

Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Tips For Social Distancing, Quarantine, And Isolation During An Infectious Disease Outbreak. SAMHSA Publication. PEP20-01-01-007. Disponívelem: https://store.samhsa.gov/product/Taking-Care-of-Your-Behavioral-Health-Tips-for-Social-Distancing-Quarantine-and-IsolationDuring-an-Infectious-Disease-Outbreak/PEP20-01-01-007. Acessoem 10 ago. 2020.

 

Center for the Study of Traumatic Stress (CSTS). Psychological Effects of Quarantine During the Coronavirus Outbreak: What Healthcare Providers Need to Know. Disponível em: https://www.cstsonline.org/assets/media/documents/CSTS_FS_Psychological_Effects_Quarantine_During_Coronavirus_Outbreak_Providers.pdf. Acesso em 10 ago. 2020.

 

Tabela 1: Sinais de alerta emocionais

Insônia persistente, ou hipersônia, pesadelos frequentes, trocar o dia pela noite

Irritabilidade excessiva, ansiedade, reações de pânico, alterações bruscas de humor, angústia, permanecer inquieto ou em alerta, medo, tricotilomania (arrancar os cabelos)

Tendência ao isolamento ou choro frequente, preocupação excessiva, tristeza duradoura, desânimo, apatia, desinteresse ou incapacidade de sentir alegria ou prazer, dificuldade em executar as tarefas habituais

Alteração no padrão alimentar, ganho de peso, compulsão alimentar, perda do apetite

Aumento da frequência e da quantidade do consumo de álcool, tabaco ou drogas (incluindo fármacos)

Dores de cabeça frequentes, dor ou tensão muscular excessiva

Automutilação, ideação suicida

 

Tabela 2: Ficção e fato em relação ao suicídio

Ficção

Fato

Pessoas que falam em suicídio não cometem suicídio

A maioria das pessoas que se matam deram aviso da sua intenção

Suicidas têm intenção absoluta de morrer

A maioria é ambivalente

Suicídios ocorrem sem aviso

Suicidas frequentemente dão ampla indicação de sua intenção

Melhora após a crise significa que o risco acabou

Muitos suicídios ocorrem em um período de melhora, quando a pessoa tem energia e a vontade de transformar pensamentos desesperados em ação autodestruitiva

Nem todos os suicídios podem sem prevenidos

Verdade, mas pode-se prevenir a maioria

Uma vez suicida, sempre suicida

Pensamentos suicidas podem retornar, mas eles não são permanentes. Em algumas pessoas eles podem nunca mais retornar

 

Tabela 3: Ideias equivocadas em relação ao Suicídio

Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir a pessoa a isso

Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular

Quem vai se matar não avisa

Quem quer se matar, se mata mesmo

No lugar dele, eu também me mataria

Veja se da próxima vez você se mata mesmo!

Quem se mata é bem diferente de quem apenas tenta